domingo, 15 de fevereiro de 2009

serei o teu cachecol das manhãs mais frias


pescoço enrolado em tecidos que pulsam...

a palavra amor

"estou tão apaixonado pelo amor
mas tão terrivelmente apaixonado
que ponho a palavra em todo o lado
decompondo-a repetidamente destilo-a
em todas as letras com que é escrita
e vejo-a em tudo para onde olho
sinto-a flores em ramo que mexo
e deixo-a onde sempre quero
que é invariavelmente naquilo em que preciso
para ser outra vez feliz
e chamo-lhe nomes baixinho
segredo-lhe suspiros ao ouvido
guardo-a sempre que a aperto
nas linhas profundas da mão

e eu que não sei bem seguramente
se em deus acredite ou não
acredito tanto nela que talvez
mesmo se deus viesse para pôr ali o dedo
julgo que ficaria como eu
parado deslumbrado num desmaio
tão surpreendentemente emocionado
que acabaria por perceber
mais nada valeria a pena fazer
pois assim já estava perfeito

até que como um menino menina
em deus criança acredito facilmente
rebolaria na areia até ficar croquete
esperaria na praia pela sétima onda
para corado salgado tiritando
lançar então ao mar sorriso
numa garrafa vidro verde meio baço
tampa cuidadosamente calafetada
uma mensagem em letra mal escrita
em espuma apenas uma palavra
amo tracinho te

gosto muito da palavra amor
mas gosto ainda mais em luar
de tudo para que ela serve"

pedro strecht in, "sete" assírio e alvim

...e vinhas sereno
corpo nu em inverno despido
a carne enrugada esperando uma gola...

pura lã...

e vinhas assim... mascarado do azul das madrugadas mais fundas
céu estrelado a cumprir primavera antecipada...

laranja a abrir... no sumo leve e doce de cada veio...

o cheiro do café...

o nossa roupa canta um piano em chamas









The Heart Asks Pleasure First - Michael Nyman

s/t


Um beijo teu é um texto...
um abraço feito de lã.


Navegar em ti.

s/t


gosto-te

o bocejo do sol


Cai a tarde. E entre estas quatro brancas paredes há um cheiro forte a café que me inunda. Observo os telhados que se vão cumprimentando. Caminham sobre a fresca serra, agora beijada pela neblina. O sol boceja depois de tanto se ter banhado neste mar imenso de azul e calor. Olho para trás. E há esta tranquilidade infinita no teu rosto. Invejo a gola alta do casaco que te aquece. Os teus olhos repousam sobre prados de lã. E demoro a olhar-te. E sem que o esperasse, o sol respira sobre ti uma última vez. Abres os olhos.

Olá.
Olá.

E mergulho neles à procura de tesouros escondidos, entre o cântico alegre de velhos piratas e dançantes estrelas-do-mar.

Olá.
Olá.