quarta-feira, 8 de abril de 2009

s/t

Bombeiro. Já tinha sido bombeiro. Depois, astronauta. Tentaram o polícia mas conseguiu, na sua pequenez, recusar e, em vez disso, apareceu como pirata. Até lhe tinham arranjado um papagaio verdadeiro, da loja do tio, aquela ali para os lados da avenida principal, eu cá só quero que ele faça boa figura mas tragam-mo vivo, tragam-mo vivo. Foi um sucesso nesse ano. O pobre do papagaio lá se ia assustando perante tantos dedos atrevidos que procuravam sentir as cores da sua indumentária. É claro que as bicadas resolveram situações consideradas mais críticas e o papagaio até parecia que compreendia a sua importância e a diferença que fazia naquele pequeno ombro. No ano anterior, e depois de toda aquela aventura do papagaio colorido, que acabou por chegar são e salvo à loja do tio, fora o tão desejado contentor da reciclagem. Mas o azul, que era a cor do mar que ele gostava muito. Lá ia movendo os bracitos com alguma dificuldade e facilmente era confundido com um robot não, não, mas vocês não vêem que sou o contentor da reciclagem? Pois, nós, os adultos nunca percebemos nada.

Fui dar com ele no quarto, triste, com o queixo encostado ao colchão. Havia papéis com rabiscos, desenhos indecifráveis (para nós, adultos, claro!), tinha as costas das mãos com umas letras, possivelmente um sinal para se lembrar de alguma coisa, hábito, aliás que tinha adquirido com o tio, o tal da loja do papagaio ali para os lados da avenida principal, é só virarem à direita e… Olhei para ele. Os lápis de cera que se encontravam em cima da cama tinham feito os seus estragos na t-shirt branca. Todo aquele emaranhado de cores difusas formavam estranhas figuras. Baixei-me. E nesse momento…

Toda a gente sorriu nesse ano, naquele desfile. Tinha sido, pelo menos, o traje mais original. De t-shirt branca, calças brancas, cabeleira branca, ele lá ia, no meio de todos os outros, cheio de letras rabiscadas, umas grandes, outras mais pequenas, umas coloridas, outras quase transparentes, umas direitas, aquelas muito tortas e com um sorriso de encher o mundo, muito direito na sua consciência de pequenote.

Ainda hoje a guardo. Como um tesouro. Com saudades. A minha roupa. Roupa de letras.

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